A BGS e os seus muitos significados

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A Brasil Game Show é uma feira anual de videogames organizada pelo empresário Marcelo Tavares. O evento nasceu como um pequeno projeto no Rio de Janeiro, ganhou proporção e transformou-se na BGS. A feira de games é a maior da América Latina e uma das maiores do mundo em público e área.

Infelizmente a edição presencial de 2020 foi cancelada por conta da pandemia. Para amenizar a falta que o evento fará em nossos corações, foi organizado o BGS Day: dois dias de muito conteúdo on-line para ser apreciado de casa. São mais de 6 horas de conteúdo exclusivo por dia. Ele acontecerá entre os dias 10 e 11 de outubro.

Mas afinal de contas, o que a BGS significa pra você?

Alguns acreditam que o objetivo principal da feira é o de apresentar novos jogos/consoles, dando-nos a oportunidade de jogá-los antes da data de lançamento. Para mim, isso é apenas uma camada do bolo, faltam outros ingredientes que tornam o evento tão bom quanto ele é. Nos próximos parágrafos quero compartilhar com vocês essas outras camadas, que acabei descobrindo aos poucos, quando participei das últimas 3 edições do evento.

Divulgação: EGS 2005

A primeira vez a gente nunca esquece

Lembro-me de quando não havia um único evento se quer de games no Brasil. A impressão que eu tinha na época, é de que o nosso país não existia para o resto do mundo. As revistas de games, antes da internet chegar, eram o único meio que tínhamos para saber sobre os novos consoles ou jogos.

Quando um rumor surgia, corríamos para as bancas de jornal para verificar se uma das publicações da época havia confirmado ou negado o tal rumor.

Até lá, a história ganhava força nas rodas de amigos no intervalo das aulas ou entre uma partida e outra de videogame. Claro, que a maioria das vezes a “história” tomava proporções absurdas.

A internet veio e a necessidade de acompanharmos o que estava rolando ao redor do mundo cresceu a uma velocidade vertiginosa.

Muitos deixaram de acompanhar as revistas impressas e focaram suas atenções nos grandes portais, que conseguiam entregar informações muito mais rápido do que seus “parceiros” impressos.

Mesmo com essa mudança na forma de consumir informação, havia um sentimento que permeava em muitos jogadores e geralmente se manifestava com a seguinte pergunta:

Quando teremos uma feira de games?

Assistir um trailer ou ler uma matéria não chega aos pés da experiência de testar o jogo pessoalmente em um estande. E perceber que existiam eventos ao redor do mundo, onde era possível fazer isso e mais: poder testar o protótipo ou a versão final de um novo console, era algo que me deixava extremamente chateado.

A minha primeira experiência com uma feira de games aconteceu na EGS (Eletronic Game Show). A edição de 2005  permitiu a nós, meros mortais, testar o tão aguardado Xbox 360 e jogar os títulos: Perfect Dark Zero, Dead or Alive 4, Project Gotham Racing 3 e o Kameo.

Perfect Dark Zero

Eu fiquei na fila por mais de uma hora e joguei por menos de 5 minutos. Mesmo assim, foi uma das melhores experiências que tive com games e foi ali que decidi qual seria o meu próximo console.

Infelizmente a EGS deixou de existir, mas no dia 21 de junho de 2009 nascia a Rio Game Show. No ano seguinte o evento passou a se chamar Brasil Game Show e o mais importante: não ficou mais restrito ao Rio de Janeiro, a ideia agora era dominar o Brasil.

A amizade e os jogos

A feira cresceu muito nos últimos anos, há quem diga que ela precisa de mais dias e de um espaço maior. Concordo com a primeira afirmação: uma semana é pouco para a quantidade de visitantes que o evento recebe. Eu tive o privilégio de cobrir três edições delas e todas estavam abarrotadas de pessoas. Isso não me incomodou em nada, pelo contrário, foi aí que percebi que o evento não está limitado apenas aos jogos.

A primeira edição que fui foi um pouco caótica para mim, pois eu não estava preparado para a grandiosidade do evento. Claro que nem sempre é possível nos organizarmos 100% para a feira, mas posso dizer que é mais fácil aproveitá-la com um roteiro em mãos e também com um grupo de amigos.

Divulgação: BGS 2019

Na minha opinião a feira começa quando iniciamos o nosso deslocamento: de casa para a feira. É bem provável que no caminho você encontre pessoas se deslocando para o mesmo lugar que você. Eu sou um cara tímido, sempre evitando conversar com pessoas que não conheço, mas o sentimento promovido pela BGS parece ter o poder de nos transformar e quando surge a primeira oportunidade de trocar ideia sobre a feira, a timidez some e o assunto games toma conta do momento.

Quando você cobre um evento desse porte, você ganha o privilégio de entrar por um lugar diferente da maioria dos visitantes, sem fila e sem espera (em teoria). Eu sempre levo minha esposa e filho para participar, por isso, em um dos dias eu fico na fila comum com eles.

É nessa hora que fico observando o movimento que acontece durante a espera do início da feira. Grupos de pessoas, que outrora, pareciam ser pequenos começam a crescer. Em alguns casos são os amigos atrasados que chegaram, em outros foi a união de mais pessoas, que não se conheciam, mas que graças a um jogo em comum resolveram se juntar.

Vendendo sonhos

O cenário brasileiro de desenvolvimento de jogos é pequeno, perto de gigantes como o Estados Unidos ou o Japão, mesmo assim muitos títulos promissores foram lançados por aqui nos últimos anos. Podemos citar, por exemplo, o jogo Dandara, que apareceu na lista de Top 10 games da revista norte-americana TIME. O jogo foi desenvolvido pelo estúdio mineiro Long Hat House e publicado pela Raw Fury.

Nas últimas edições a BGS reservou um espaço exclusivo para os estúdios indies. E foi lá que tive a oportunidade de conhecer muitos projetos promissores, fora a oportunidade de trocar figurinhas com os desenvolvedores.

Personagem baseada na obra de Tarsila do Amaral.

Eu considero o espaço indie da feira como uma das partes mais importantes do evento. Pois nele vemos pessoas apaixonadas pelo que fazem, tentando de alguma forma, apresentar o seu sonho para centenas de jogadores e quem sabe, futuros compradores. Fora os estudantes, que também enxergam a oportunidade de conversar com pessoas mais experientes, para que um dia, eles mesmos, possam lançar os seus jogos.

Outro espaço, que também merece atenção, é o da BGS Jam. Lá equipes formadas por estudantes buscam desenvolver o melhor game, entre eles, em 48 horas. Para quem não sabe, uma JAM é uma reunião (presencial ou online) de desenvolvedores (estudantes ou profissionais) de jogos que tem como objetivo criar um jogo em um curto intervalo de tempo. No caso da BGS, os vencedores geralmente ganham um valor em dinheiro.

Divulgação: BGS JAM

Participantes ilustres

Quem nunca sonhou em fazer uma pergunta direta para o seu diretor ou produtor de jogos preferido? As últimas edições da feira trouxeram nomes importantes da indústria de games para bater um papo com a galera e também para participar de eventos especiais dentro da feira.

Em 2017 tivemos a visita do chefe da divisão de games da Microsoft: Phil Spencer. Que recebeu diretamente das mãos do amigão Iarley Bermudes o prêmio Lifetime Achievement Award.

Divulgação: BGS2017

O evento conta com várias atividades que permitem ao visitante conversar, ganhar um autógrafo ou fazer perguntas a um produtor, dublador ou diretor. Alguns já são considerados de casa, como o produtor Yoshinori Ono (Street Fighter V), Hideo Kojima (Death Strading) e o Rod Fergusson (Gears of Wars).

Eu consegui participar de alguns Meet & Greet e em um BGS Talks Twitch. Afirmo com todas as letras, foram experiências incríveis, algo inimaginável no passado.

Na edição de 2019 tive a oportunidade de tirar uma foto, pegar um autógrafo ou trocar uma ideia com o Ed Boon, produtor e diretor da franquia Mortal Kombat. Fiquei tão nervoso na hora, que a sensação que tive era de estar congelado (certeza que foi o Sub-Zero), e por conta do nervosismo, deixei passar em branco essa oportunidade.

Esses momentos não se restringem apenas aos jornalistas, ela é aberta ao público presente no evento. Alguns necessitam de cadastros, outros não. São ocasiões únicas de conhecermos esses caras, que a tanto tempo nos divertem através dos seus jogos.

Divulgação: BGS Talks 2018

Tem espaço para todos

Na última edição tive a oportunidade de conversar com muitas pessoas, na verdade, eu queria entender o que os motivava a visitar a feira. Alguns falaram que o sonho deles era de trabalhar com criação de conteúdo (games), por conta disso, necessitavam experimentar os próximos lançamentos, outros estavam participando de campeonatos (Brasil Game Cup), e também tinham aqueles que estavam apenas passeando com suas famílias.

Uma coisa que eu percebi, durante esses bate-papos é a oportunidade que a BGS dá aos pequenos sites/blogs. Em outros eventos a credencial de imprensa é oferecida apenas a grandes veículos de comunicação. Na BGS vi muitos produtores de conteúdos independentes agradecendo ao Marcelo Tavares a oportunidade de cobrir o evento. Eu mesmo, tive a oportunidade de fazer isso em três ocasiões, todas de forma independente.

Divulgação: Cosplay na BGS

Além dos aspirantes a criadores de conteúdo, temos os influencers, que marcam presença na BGS e aproveitam a oportunidade para conhecer melhor o seu público. É muito comum encontrar donos de canais com mais de 5 milhões de inscritos andando de um lado para o outro. Na maioria das vezes, disponíveis para a atender os pedidos dos fãs.

A galera do cosplay aproveita a feira para apresentar os seus trabalhos na Cosplay Zone, área destinada aos concursos diários de melhor cosplay. É muito bacana andar pelos corredores e se deparar com um personagem que você curte. Eu não perco a oportunidade e já peço para tirar uma foto.

Dias melhores virão

Muitas pessoas ficaram tristes, por conta do cancelamento da edição deste ano. Infelizmente foi a melhor coisa a se fazer. Nós do Xbox Mania entendemos a importância e a grandiosidade do evento. Claro, que adoraríamos nos encontrar mais uma vez, visto que, muitos moram em outros estados e só conseguem se encontrar nessa data.

Mas há momentos na vida que é importante parar, como o simples ato de pausar o videogame, afim de entender o que realmente está em jogo. O momento é de preservar vidas, para que juntos, no futuro possamos aproveitar as novas edições dessa grande feira.

Divulgação: BGS 2018

Sabemos da importância do evento na vida de cada um e esperamos que você não deixe a tristeza tomá-lo, força, continue lutando, continue produzindo o seu conteúdo, porque em breve o reconhecimento chegará e você poderá compartilhar com seus amigos na maior feira de games da América Latina.

Acreditamos que dias melhores virão e que a edição de 2021 será maior e melhor. Que a BGS, que nos permite vivenciar tantas alegrias, voltará mais forte e nós, com certeza, estaremos lá para aproveitar esses momentos incríveis, fazendo o que mais gostamos: jogando videogame.

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