Análise – King of Seas

Última atualização:
LANÇAMENTO
25/05/2021
DESENVOLVIDO POR
3DClouds
PUBLICADO POR
Team17

Jogos de piratas não são novidade na história dos games: Sid Meyer’s Pirates e The Secret of Monkey Island são exemplos antigos de jogos com a temática pirata que precederam a criação do Windows: os dois jogos foram lançados ainda na plataforma DOS (aqui já entrego a todos os leitores minha idade, rs). Porém, o “surto” mais recente na produção desse tema de jogos pode ser rastreado até Assassin’s Creed Black Flag, da Ubisoft, que tomou carona no sistema de navegação utilizado em partes do jogo anterior da franquia (Assassin’s Creed 3) adotando uma versão mais robusta da navegação e fazendo deste aspecto o ponto principal do jogo.

Caindo imediatamente no gosto dos jogadores e nas graças da crítica, Black Flag acabou por fazer relevantes novamente os jogos com piratas: Sea of Thieves foi lançado pela Rare poucos anos depois, sendo hoje um dos jogos mais executados da Steam, e um dos jogos com a maior quantidade de jogadores simultâneos dos últimos anos. A mais nova expansão que faz um crossover com a franquia cinematográfica Piratas do Caribe só mostra o tamanho do sucesso de Sea of Thieves em particular.

Tentando pegar carona no sucesso que a própria empresa inaugurou, a Ubisoft apresentou um jogo de piratas chamado Skull & Bones, do qual não temos notícias há quase 3 anos, embora a empresa ainda insista em dizer que o jogo ainda está em desenvolvimento. Assim, entre trancos e barrancos os pirtas vêm mantendo sua presença constante no cenário gamer. Eis que, em 2021, foi lançado King of Seas, apostando em uma nova proposta para o tema de jogos de piratas. Mas será que esse barco afunda? É o que veremos a seguir!

Modos de Jogo e Mapa

O jogo possui apenas um modo, que te introduz a uma história interessante, apesar de genérica: você é o filho de um figurão da Marinha que sonha seguir os passos de seu pai. Porém, em sua primeira missão, que seria de entregar uma carga na cidade onde residia a Família Real, o rei é misteriosamente morto e você é apontado como o assassino. Após uma breve perseguição, a Marinha afunda sua embarcação acreditando que você também foi morto. Logo depois, o protagonista é resgatado e se une a um grupo de piratas para desvendar os mistérios do assassinato do rei e do porquê de ter havido uma armação na autoria do crime.

O mapa é razoavelmente extenso, contando quase que totalmente de água e algumas ilhas esparsas onde ficam localizadas ilhas com cidades, entrepostos comerciais e centros de cartografia. Apesar de se sustentar apenas no modo história, a exploração é feita em um mundo totalmente aberto e o jogador pode fazer as missões principais apenas quando desejar, abrindo mão de um sistema de progressão linear de forma a priorizar a liberdade de seus jogadores.

Diferente da maioria dos jogos atuais, o mapa não é revelado simplesmente por exploração, e sim unicamente através da compra de mapas de cada “região” dos mares do jogo. Existe uma grande variedade de embarcações que navegam pelos mares do jogo, de barcos de turismo a barcos mercantis e galés de combate, que você pode atacar para ganhar dinheiro, recursos ou peças (que são os equipamentos do jogo). Existem 3 “facções” no jogo, separadas por um código de cor que facilita sua identificação: azul para a Marinha, preto para os Piratas e verde para os Mercadores. Os barcos militares da Marinha abrirão fogo imediatamente assim que te avistarem, então é importante logo no começo que você aprenda um pouco sobre cada tipo de embarcação para melhor traçar suas rotas nas diversas missões disponíveis.

Além das missões de história do jogo, você pode aceitar diversas missões nas cidades e entrepostos comerciais, geralmente divididas em: missões de escolta (onde você deve proteger uma embarcação de ataques até seu destino), missões de entrega (você precisa entregar um pacote ou um recurso específico – entre pedras preciosas, materiais de construção e alimentos – a uma cidade ou entreposto específico) e missões de combate (afundas um alvo específico no mapa). Ao completar as missões você ganha recursos, equipamentos para seu navio e moedas de ouro

Interface, Dificuldade e Jogabilidade

A interface do jogo poderia ser boa, não fossem os frequentes problemas de navegação com o controle. A impressão que tive foi de um jogo lançado originalmente para PC e portado para os consoles que não conseguiu fazer muito bem o mapeamento de botões para um joystick. Algumas funções consideradas básicas (como abrir o mapa) são executadas com botões pouco utilizados para funções mais frequentes (como o RS) e a navegação na roleta que representa o inventário é um exercício de tentativa e erro. Esteticamente, a apresentação da interface é extremamente simples, dando a impressão de ter sido criada às pressas: seria o tipo de interface que eu apresentaria em um projeto de design gráfico no início de um curso.

A dificuldade do jogo poderia ser seu ponto forte, porque de várias formas muda o estilo do jogo: nas dificuldades mais fáceis as penalidades de morte são bem leves (perda de ouro e alguns itens do inventário, por exemplo). Na terceira dificuldade (a mais difícil habilitada para o primeiro New Game) a dinâmica do jogo já muda para uma pegada mais roguelike, pois quando é derrotado, você perde seu barco volta para a primeira embarcação do jogo e sem equipamentos. A última dificuldade eleva o desafio com morte permanente (a temida permadeath) além de níveis maiores dos inimigos. Além do aumento no desafio para quem gosta de jogos mais difíceis, as recompensas recebem um multiplicador quanto maior for a dificuldade, tornando a dificuldade uma relação de risxo x recompensa que, em teoria, é bastante atraente.

Infelizmente, o jogo cai na armadilha de tornar o jogo difícil através de mecanismos pouco interessantes: logo na terceira dificuldade, que foi a que escolhi para escrever a análise, percebi que independente da evolução dos equipamentos de minha embarcação, os navios contra os quais lutava estavam sempre alguns (e às vezes vários) níveis acima do meu nível, tornando a dinâmica da dificuldade um exercício de frustração: já que os inimigos serão sempre bem mais fortes que sua embarcação, qual seria o propósito de evoluir em níveis no jogo? Soma-se isso o faro de que outras embarcações podem aparecem aleatoriamente para auxiliar seus inimigos e serão frequentes as vezes que você se contenta em fugir das batalhas para não correr o risco de perder seu navio.

Outro problema também se apresenta nas 3 barras de vida que seu barco possui: a barra amarela representa sua tripulação e quanto mais próxima de zero ela ficar, mais lento seu barco ficará e mais tempo você levará para realizar disparos de canhão, ativar habilidades e conduzir o navio; a barra azul representa sua vela e quanto maior o dano que você receber mais lento seu barco ficará e mais difícil será para conduzi-lo; a barra vermelha representa o casco do navio e caso ela chegue a zero, você afunda. O grande problema é que, ainda na terceira dificuldade, um simples tiro dos inimigos com a munição correta (existe um sistema de munições para você danificar cada uma das 3 barras de vida das embarcações) já é o bastante para eliminar quase toda sua tripulação, ou sua vela. Mesmo com itens que aumentem sua defesa, os efeitos defensivos são quase imperceptíveis. Consegui juntar ouro para comprar a embarcação mais resistente do jogo, com a maior quantidade de canhões e a impressão que tive em combate é que estava utilizando uma versão mais lenta do barco inicial e que, mesmo com 6 vezes mais canhões que a vela com a qual você começa o jogo, o caso causado nos inimigos parecia apenas um pouco melhor.

Dessa forma a jogabilidade, especialmente com embarcações maiores, é bastante frustrante porque os bônus não parecem compensar as desvantagens. Virar a embarcação em alguns casos é um desafio ingrato, ainda mais durante uma perseguição ou de uma fuga. Concluindo minhas obsevações sobre a jogabilidade, o jogo possui um sistema de 3 velocidades (sem velas, meia vela, ou velas completas) que em tese dariam maior capacidade de manobra aos seus barcos, mas pelos problemas citados anteriormente acabam se tornando pouco relevantes. O sistema de missões secundárias é bastante genérico e repetitivo e rapidamente te cansa, prejudicando bastante o fator diversão do jogo.

Gráficos, Som e Diversão

Acredito que essa seja a parte mais ingrata de uma análise, ainda mais quando nos propomos a criticar um jogo indie. O grande problema é que, com o cenário de jogos independentes criando produtos com a qualidade cada vez mais próxima dos jogos criados pelas grandes empresas – e em vários aspectos chegando a superar os blockbusters e Triple A’s da indústria – fica um pouco mais difícil “passar pano” para obras que parecem mal acabadas. Obviamente não é uma crítica no sentido de insultar os desenvolvedores, que certamente se dedicaram por meses para criar este jogo, mas realizando a difícil, e inevitável, tarefa de comparação com outros produtos similares, chego a algumas conclusões em maioria poucos animadoras nesta análise.

Graficamente, o jogo é pouco inspirador: as melhores partes esteticamente são os painéis que representam os personagens do jogo, muito bem desenhados e divertidos. É sempre gratificante ver em jogos os sentimentos e a personalidade de cada personagens magistralmente representadas em uma ou duas imagens! Infelizmente, os elogios ficam por aqui, já que em sua maioria o jogo parece bastante genérico, tanto no design dos navios quanto nos prédios das cidades e na interface do jogo, como já foi apontado anteriormente.

Mas comparados à parte de áudio do jogo, o jogo é graficamente espetacular – e esse não foi um elogio! A música e os efeitos sonoros parecem arcaicos, tirados de um repositório de livre domínio que poderia ter sido utilizado em um browser game do começo dos anos 2000 e nos primórdios da internet como a conhecemos hoje, onde imperava a necessidade de elementos audiovisuais pouco elaborados que pudessem ser carregados nas baixas velocidades de internet da época. Agradeça de coração se você não conhece o tom de discagem da internet do início do século! Foram diversas as vezes que preferi jogar King of Seas sem áudio algum, tamanho o meu descontentamento com a qualidade e a repetitividade do áudio do jogo. Acredito que jogos se jogam também com os ouvidos e é sempre desanimador esbarrar em um jogo que tenha sido relaxado nesse departamento.

Por fim, como sempre fica no ar a pergunta: o jogo é divertido? E minha resposta é que não. Apesar de os primeiros minutos do jogo serem agradáveis, um jogo visualmente esquecível, com efeitos sonoros e música vindos direto do túnel do tempo (de uma parte ruim do passado…) com jogabilidade e interface mal estruturada e muitas vezes frustrante, aliados a um sistema de dificuldade de joga no seu colo o difícil pelo difícil sem a sensação de risco x recompensa originalmente concebidos fazem de King of Seas um jogo pouco merecedor de nosso tempo e dinheiro.

Esta análise só foi possível graças a 3DClouds e Team17, que gentilmente nos disponibilizaram uma cópia para avaliação do jogo, fica aqui o nosso agradecimento pela confiança. O jogo já está disponível para Xbox One e Xbox Series X|S (via retrocompatibilidade) e pode ser adquirido por meio do nosso link afiliado no final desta análise.

Análise – King of Seas
Conclusão
Com uma proposta de batalhas marítimas top-down, o jogo se apresenta inicialmente interessante. Mas com gráficos pouco memoráveis, sons e músicas genéricos ao ponto de ruins e uma interface irritante e pouco intuitiva fazem o jogo naufragar ainda nos primeiros minutos de jogatina.
Gráficos
6
Jogabilidade
4
Som
3
Diversão
5
Prós
Interessante proposta de batalhas marítimas com abordagem roguelike, dependendo do nível de dificuldade
Interessante sistema de habilidades do navio
Permite que você progrida na história no seu ritmo pelo mundo aberto do jogo
Contras
Gráficos genéricos e sem identidade própria
Todo o departamento de áudio do jogo parece ter saído de um browser game do início dos anos 2000 (entendedores entenderão)
Interface confusa, navegação dos menus frustrante e clareza de informações questionável
Sistema de dificuldade mal feito onde, dependendo do nível da dificuldade, você sempre estará em desvantagem independente de seus equipamentos
Os navios mais resistentes vêm ao preço de um perda de mobilidade desnecessariamente fatal nas batalhas mais desafiadoras
4.5
MEDÍOCRE
COMPRE AQUI A SUA CÓPIA DIGITAL DE KING OF SEAS